sábado, 27 de fevereiro de 2016

Sebastião


Era o mais pequenino da ninhada. O mais frágil. O mais feio. Quando os fui ver, os irmãos correram para mim numa alegria felina, queriam-me o colo, os afagos, encheram a sala de miados ruidosos. E ele ficou encostado no canto em que estava, fitando-me de longe com os seus olhos de mar, estrábicos, mas límpidos. O mais feioso, o mais pequeno, o mais triste dos gatinhos, aquele que ninguém escolheria, - suponho eu -, foi o que eu trouxe para viver connosco. Chamei-lhe Sebastião, mas para nós acabou por ficar apenas Sebi.
Era um gato doce e meigo como nunca soube de nenhum. Conhecia-me os humores, adivinhava-me os medos, consolava-me as lágrimas deitando-se ao meu lado, só ronronando e olhando-me com os seus olhos de mar. Talvez por isso, dei o nome dele ao gato do protagonista do meu livro - de certo modo, queria eternizar num livro uma criaturinha que amei tanto, que me amou - incondicionalmente - tanto.
Hoje, o meu Sebastião soube que dezasseis anos era uma vida longa, muito longa para um gato, e decidiu partir. Estava ao meu colo quando o coração deixou de bater e não me ofereceu o azul líquido dos seus olhos... Talvez porque ele soubesse, tão bem como eu, que às vezes o mar escurece, desiste do azul, se cobre de negro, de luto, de infinita tristeza...
Como os corações humanos. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Palavras roubadas


Amar é dar o que não se tem.

Jacques Lacan

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Vale a pena pensar nisto


Foi então que tocaram à campainha. Resmunguei qualquer coisa do género "quem será o chato que vem a esta hora bater-nos à porta?". Lembrei-me do conselho da minha tia Clara, "atende sempre a porta com a carteira pendurada no braço: se for algum chato, dizes olha que pena, vou já sair!; se for algum amigo, largas a carteira e dizes: olha que bom, cheguei agora mesmo!".

Alice Vieira, in Bica Escaldada

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016


Lembro-me sempre dela no Carnaval. Ou melhor, lembro-me mais dela no Carnaval... Talvez porque ambas o odiávamos pelos mesmos motivos.
Vivemos juntas durante três anos, companheiras de quarto num lar feminino rigoroso, ambas universitárias na mesma faculdade, em cursos diferentes. Eu gostava dela por todas as razões e o que nos tornou inseparáveis era inexplicável, talvez a solidão, talvez as vivências que trazíamos, talvez uma igual sensibilidade. Mas nada disso importa, agora.
Há trinta anos que não encontro a Té, que não sei nada dela, que não conheço ninguém que a conheça. Mas vejo-a ainda com toda a nitidez, com o rosto verde por causa da máscara de argila que punha todas as quartas-feiras à noite. A Té tinha o cabelo oleoso e fino e lavava-o todos os dias; escovava os dentes com carvão uma vez por semana para que ficassem mais brancos... - e ficavam; a Té era mais velha do que eu um ano e protegeu-me de todas as praxes, de todos os doutores, de todas as maldades; foi com a Té que eu fui ver ao cinema "O Império dos Sentidos" e a "Emmanuelle", entrámos e saímos coladas com as paredes para que ninguém nos visse, desatámos a correr pela avenida acima até nos sentirmos em segurança no nosso quarto, a rir como tolinhas da transgressão feita; a Té conseguia secar e esticar o meu cabelo como mais ninguém conseguiu; quando vinha de fim de semana, a Té trazia bolachas amanteigadas numa lata azul redonda, que comíamos pela noite fora na véspera das frequências; a Té conseguiu namorar o rapaz mais bonito e desejado do grupo e ele partiu-lhe o coração em mil pedaços muito pequeninos...; a Té aparava-me as saídas ilícitas aos fins de semana, falava com a minha mãe ao telefone, e tinha sempre uma desculpa credível para justificar a minha ausência; a Té fazia-me perguntas sobre a matéria antes dos exames e às vezes, faltava às aulas comigo; a Té tinha os olhos verdes, lindíssimos, e as pestanas enormes; e foi com a Té que eu vi nevar pela primeira vez, o chão da cidade branquinho e nós na rua, com os olhos a brilhar muito, muito...
Chamava-se Teresa, mas para mim era apenas a Té.
Um dia, alguém do quarto ao lado inventou que eu disse coisas que não disse, ela acreditou, nunca mais me falou e eu sofri horrivelmente.
A Té terminou o curso primeiro do que eu, voltou para a cidade dela e não me procurou nas vezes em que voltou à universidade. Os anos passaram, a vida passou, e eu continuo a lembrar-me dela sempre. Nos últimos dez anos procurei-a em todo o lado: nas listas de professores a que tenho acesso, nos congressos, no Facebook e outras redes sociais, pergunto às pessoas que sei que são ou que vão à cidade onde ela morava... Nunca a encontrei. Parece-me incrível e assustador que na era digital, na era da comunicação e da transmissão da informação à velocidade da luz, na sociedade do Big Brother onde deixamos rasto por todo o lado onde passamos, eu não consiga, de forma nenhuma, encontrar a minha Té.
Onde mais te procuro, Té? Diz-me: onde é que te encontro?

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O nó das sombras


Ninguém sabe ao certo quando foi que ela começou a entristecer. Ninguém se deu conta, porque foi acontecendo devagar, tão devagar como o sol quando desce e lentamente vai cobrindo de sombras as copas das árvores nas montanhas... E se primeiro ficam escuras as montanhas, depois são os prados, os rios, e de repente, mar e céu, tudo são sombras da mesma cor da sombra da noite. Da sombra da morte.
Foi assim que aconteceu com ela, como um sol que se põe. Devagar. Sem ninguém perceber. 
Um dia deixou de cantar, mas a família não notou. Os amigos não notaram. Tempos mais tarde (quando...?), davam com ela de olhos parados, colados no vazio, ou lendo para dentro (quem sabe...?) as histórias que guardava no peito... Chegou uma altura (qual...?) em que percebiam já todos que ela se assustava quando falavam com ela, como se habitasse num outro lado do tempo onde o ponteiro das horas girava em sentido inverso... Depois, deixou de sorrir. E de ter coisas para contar. Deixou de falar. E cobriu os olhos de sombras escuras, da cor da noite. Cobriu o rosto de véus de tristeza e de silenciosas solidões. Talvez tenha sido então (seria...?) que todos notaram - e era tarde. 
Impossível resgatar do breu da noite a luz de um sol que se apagou para sempre.