quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Em nome do Amor


Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
– só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;

só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face. 


Eugénio de Andrade, "Soneto" in Os Amantes Sem Dinheiro

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

In Memoriam


Se fosse vivo, hoje David Mourão-Ferreira faria 88 anos. "O meu David", como eu gosto de lhe chamar. Descobri-o sozinha, quase adolescente, nas tardes solitárias em que a estante do avô estava por minha conta e eu podia ir buscar uma cadeira e subir à prateleira de cima, onde longe dos olhares e das mãos dos netos o meu avô escondia, numa fila de trás, os livros que achava que ainda não eram para a nossa idade. Atraiu-me a capa e o título - A Arte de Amar. Li muitos poemas às escondidas e fascinou-me aquilo que ainda desconhecia na altura: tinha encontrado a Poesia; tinha conhecido o Poeta. Semanas mais tarde, o avô apanhou-me com o livro na mão e não se zangou... Disse-me só que eu ainda teria que ler muitos livros para perceber aquele... E eu li. Li todos os do David Mourão-Ferreira que existiam na estante. Estava apaixonada por aquele homem de sorriso misterioso e olhar magnético que me fitava na badana do livro; estava apaixonada pela elegância da escrita, pela beleza das palavras. Passei a seguir o programa de televisão que ele tinha na altura e apesar de perceber muito pouco do que era dito, não tirava os olhos daquela figura que me tinha despertado para a Poesia.
Gosto de tudo o que David Mourão-Ferreira escreveu. Li tudo o que havia para ler sobre ele e adorei ter escrito a minha dissertação de Mestrado sobre O Amor e o Erotismo na sua obra. O país esqueceu-o mas eu não permito que ele seja esquecido: falo dele aos meus alunos, leio-lhes poemas de quando em vez, sempre que vem a propósito refiro-o como uma das maiores personalidades literárias do século XX. Canto-lhes o "Barco Negro" que ele escreveu para a Amália. E aconselho-lhes a leitura da sua obra, um maravilhoso hino à Mulher e ao Amor.
Dizem que os poetas não morrem... Talvez seja verdade e por isso, hoje apetece-me recordar um dos poemas mais belos que ele escreveu para Fado. Um poema imortal, como o Poeta que o escreveu.


Era uma noite apressada
depois de um dia tão lento.
Era uma rosa encarnada
aberta nesse momento.
Era uma boca fechada
sob a mordaça de um lenço.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a casa perdida
no meio do vendaval;
imensa, a linha da vida
no seu desenho mortal;
imensa, na despedida,
a certeza do final.

Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era a minh'alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a luz proibida
no centro da catedral;
imensa, a voz diluída
além do bem e do mal;
imensa, por toda a vida,
uma descrença total!

David Mourão-Ferreira, in À Guitarra e à Viola

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Da espera


Espero-te
Mas conto apenas até dois
Receio o depois
Dizer três
E não chegares
Perder-te de vez...

José Gabriel Duarte, "Espero-te"

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Mentira


O desafio era escrever um conto onde só nas linhas finais da última página o leitor descobrisse a mentira: uma mentira inesperada e terrível. 
O regulamento admitia ainda que o trabalho pudesse ser inspirado na realidade ou então fosse pura ficção... E desta vez criei a partir do quotidiano, da vida real que tem matéria que chegue para a literatura - a minha terrível mentira foi baseada numa verdade inacreditável...
Se gosto do meu texto...? Gosto sim, gosto muito...! E agradeço ao júri que o selecionou o facto de também ter gostado, o facto de lhe ter reconhecido qualidade para figurar nesta coletânea.
O livro chegou-me hoje às mãos e está lindo. Obrigada, Pastelaria Studios!   

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Faz de conta que agora


agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor

valter hugo mãe, in Contabilidade

sábado, 7 de fevereiro de 2015

(...)


Espalho pelas manhãs a palavra que não sei dizer. Vejo-a adejar no ar claro - majestoso bailado debaixo do sol - e tombar, quebrada aos pés do frio vento norte que lhe despreza as asas. Ali fica, desamparada no chão, embrulhada no seu desalento, vítima moribunda dos meus lábios selados. 
A queimar-me ainda. 
Tão só, a palavra que eu não sei dizer. 
A rasgar-me o peito, a palavra que eu não posso dizer.