domingo, 20 de abril de 2014

Páscoa

 
A si que me visita, desejo uma Páscoa Feliz!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A Morte é uma Merda

 
Deve ser da idade, estou a ficar sem paciência para conversas de treta, para pessoas que se fazem passar pelo que não são, que tentam desesperadamente espelhar uma imagem que não é a sua e não as reflete... O Gabriel García Márquez morreu há umas horas e de repente, em todos os blogues, em todos os estados do facebook há gente a citá-lo (erradamente, muitas vezes), a falar do Cem Anos de Solidão como o livro das suas vidas... E se isso me irrita, é porque eu sei que não é verdade, que algumas das pessoas que o afirmam, nem a Dica leem, quanto mais Gabriel García Márquez...! Mas dizem-no com propriedade, ignorando talvez que o referido livro é uma obra de leitura difícil, densa, que nos absorve e nos desgasta... É um livro que exige amor pela leitura, que exige memória... Mas todos o leram, de certezinha absoluta...! Que motivos levarão um leitor a falar de algo que desconhece? A citar um autor que nunca leu, a correr e às pressas, com uma frase qualquer levianamente retirada do "Citador"? A maravilhosa obra do Gabriel García Márquez é um monumento da literatura universal e deve "cair bem" dizer-se que se conhece... Pois bem, eu não conheço. Assumo aqui e agora a minha falha que fará de mim uma demente perante a blogosfera. Do autor li apenas sete livros, nem um terço da sua bibliografia, o que faz de mim uma desconhecedora da sua obra... Uma mentecapta, é o que eu sou. Mas por todo o lado se vai dizendo com pretensão que ele era o maior autor de todos os tempos, um autor imortal, o maior escritor espanhol (valha-me Deus!!!) que se afirma ler e reler...
Não tenho paciência, confesso. Não tenho paciência nem sequer para a morte, acho-a uma merda, e no entanto, o Gabriel García Márquez olhava-a de frente, escreveu sobre ela com perícia no fantástico Olhos de Cão Azul que andou em cima da minha mesa de cabeceira durante meses, depois da morte da minha avó... Lembro-me que li os contos à espera de uma resposta que não sabia onde encontrar: porque morrem os que amamos...? Para onde vão quando nos deixam...? Porque nos custa tanto, mesmo quando sabemos que só pode ser assim...? O Gabo estava gravemente doente e em grande sofrimento, há muitos anos. O cancro que o minava derrotaria também o soberbo escritor e por isso, numa atitude de lucidez, anunciou ao mundo que deixaria de escrever porque a memória o abandonava... Imagino o que isto deve ser para quem escreveu a vida toda, para quem esgrimia as palavras para combater vícios sociais, para denunciar defeitos humanos e sistemas políticos... Talvez a sua morte tivesse sido, afinal, a porta que ele desejava atravessar... 
Esta noite, em homenagem ao Gabriel García Márquez, não usarei citações... Vou ficar em silêncio porque não falta quem o epigrafe a torto e a direito, quem lhe dedique poemas e preste devoção... Em memória do autor, vou pegar num livro dele, abri-lo ao acaso e ficar a sós com a sua escrita. E não, o meu preferido não é o Cem Anos de Solidão... Eu gosto muito, muito mesmo, é de O Amor nos Tempos de Cólera... Vou reler as cartas de Florentino a Firmina e saltar para o fim, para a parte em que o leitor descobre que a procura deste amor que perdura para além do tempo e da distância, durou 53 anos, 7 meses e 11 dias... Tão belo, este livro...! E amanhã vou à Fnac comprar todos os outros que me faltam do Gabo. Não há nada mais triste do que isto: olhar as prateleiras da estante e perceber que temos toda a obra de um escritor que adoramos, que ele não escreverá mais nada porque já não está entre nós... Uma merda, é o que é...!

quarta-feira, 16 de abril de 2014

As grades do Amor




De te ver fiquei repeso,
em vez de ganhar, perdi;
quis prender-te, fiquei preso,
e não sei se te prendi.
 
António Aleixo, "Não sei se te prendi", in Este Livro Que Vos Deixo
 

terça-feira, 15 de abril de 2014

A casa dos rododendros

 
Na minha rua mora uma mulher triste. Lembro-me de que quando a casa foi construída, eu abrandava sempre em frente às obras para me certificar se o gigante de cimento tinha parado de subir, porque aquela construção destoava na estrada antiga onde as moradias de dois pisos ladeiam harmoniosamente as beiradas do caminho. A casa da mulher triste tem três pisos e uma cave com duas janelas espreitando rentes ao chão, como olhos maléficos. Sempre a achei horrenda e quando ficou pronta, a família veio habitá-la e o mais belo jardim da freguesia nasceu finalmente. Era um jardim retangular com um relvado verdíssimo extremosamente aparado pelo dono da casa, aos domingos de manhã, com direito a protestos por causa do barulho infernal da máquina que perturbava o descanso dos vizinhos.
Quando começámos a conversar, a mulher triste que mora na minha rua tinha os olhos brilhantes e era conversadora... Cruzávamo-nos duas vezes por dia, de manhã bem cedo e à noite, depois do jantar, quando ela vinha passear o cão que, por saber-se em segurança, gostava de atiçar os meus, ladrando furiosamente do outro lado da estrada. E enquanto eu abria os portões, ela conversava comigo, banalidades quase sempre, e eu gabava-lhe o jardim que era a menina dos seus olhos. Singelamente verde e despojado, lembrava-me uma quina de copas com cinco magníficos rododendros imponentes, explodindo em cor, manchas carmesins num jogo de cores maravilhoso... Não sei muito bem quando foi que a mulher que mora na minha rua encheu os olhos de tristeza... Um dia vi-a sozinha, em frente à minha casa e perguntei-lhe pelo cão. Talvez tenha sido nesse momento, em que os olhos dela se demoraram nos meus, que percebi... Hoje sabe-se que a mulher dos olhos tristes vive sozinha no casarão feio a que chamamos a casa dos rododendros. O marido deixou-a há tempos, os filhos partiram para longe, casado um, a fazer Erasmus o outro, emigrado o mais novo. O cão morreu com uma infeção estranha que o veterinário nunca soube explicar... Só resta ela. Num grito de revolta, no outono passado decepou os rododendros, arrancou a relva e cimentou o jardim com uma tijoleira aos quadrados pretos e brancos, porque não queria nada em casa que lhe lembrasse "o falecido". Entendo o gesto dela mas fazem-me falta os rododendros rubros que eu não consigo fazer vingar no meu jardim... Ano após ano, todos os que planto morrem inexplicavelmente...
A mulher triste que mora na minha rua continua a sair de casa, duas vezes por dia, para "respirar"... Os meus cães gostam dela, lambem-lhe mansamente as mãos através das grades quando ela pára para lhes fazer festas com lágrimas nos olhos. Já não lhe ladram... Também eles sabem, estou certa, que naqueles gestos embrulhados em tanta solidão, naqueles olhos vermelhos de tantas lágrimas, se espelham, para sempre, os rubros rododendros da saudade.
 
 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Água...


E não sei se sou eu
a tua casa,
se és tu quem mora
em água eterna
em mim.

Ana Luísa Amaral
 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Alegria


A tua voz ao telefone. Incrivelmente perto, como se o Canadá fosse aqui ao lado e tu nunca tivesses partido. Como se nunca me tivesses faltado estes anos todos. Hoje a tua voz, a fazer transbordar de alegria o meu dia cheio de pautas, de classificações, de relatórios, de estatísticas, de propostas para aulas de apoio pedagógico acrescido, de estratégias de remediação ditadas em voz dolente numa sala fria donde se viam as gaivotas num voo estridente. Hoje, como todas as Páscoas, a certeza de que vens e de que estaremos juntas outra vez... E por entre as reuniões corridas, a memória fugia-me para a tua voz no telefonema rápido só para me garantires que vens, que chegas amanhã e que nos encontraremos no sábado, de certezinha, sem falta nenhuma, que um ano de ausência esconde saudades que fazem doer... Antecipo a tua chegada, abro a porta da memória e subo a correr, como dantes, a escadaria escura da casa da tua mãe... Lá em cima recebes-me a cantar, a bater palmas, aos pulinhos alegres, e puxas-me para dentro, voámos até ao teu quarto que cheira a glicínias explodindo em cachos roxos na grande árvore que atira os braços para as vidraças das tuas janelas. Depois era só risadas, segredinhos, os rapazes mais giros da turma, o velho professor que nunca sabia o teu nome e me inundava de perdigotos na carteira da primeira fila... Fazíamos desfiles de moda, ensaiávamos penteados e pintávamos os olhos como a Brigitte Bardot, tão linda...! Tu ajudavas-me com a matemática, eu corrigia o teu mau francês e fazíamos pausas no estudo para consultar a lista telefónica e desatar a fazer telefonemas anónimos sempre com as mesmas vítimas - um Coelho, um Leitão, um Talho qualquer neste país... as piadas parvas com graça inesgotável que nos levavam às lágrimas... Na imaculada cozinha da tua mãe, tu pedias-me muito, eu dizia que não mas lá fazia leite creme para o lanche que cobríamos de açucar mascavado e de canela... Depois dançávamos até cair para o lado as músicas todas dos Bee Gees, aos gritos na aparelhagem ultra-moderna que os teus pais tinham comprado em Espanha e quando tombávamos exaustas, falávamos, perdidas de riso, dos primeiros beijos na boca e do sexo que desconhecíamos como se fazia...
Quando partiste, levaste contigo um quinhão da minha alegria e não faz mal que venhas só uma vez por ano... Sou uma mulher à moda antiga, de amores eternos, as pessoas que amo não as esqueço só porque não as vejo, só porque estão distantes de mim... Sei que quando te abraçar e nos olharmos nos olhos, será como se nunca tivesses ido embora e no teu sorriso feliz, terei recuperado toda a minha alegria.

domingo, 6 de abril de 2014

Cá dentro

 
O coração é uma casa como outra qualquer - sussurro-te. E tu finges que compreendes aquilo que não pode ser compreendido e ficas em silêncio de novo. Percebo que escorregaste outra vez para aquele lugar dentro, fundo, onde não te sei encontrar, e que deixaste de me ouvir. Continuo a pentear-te em silêncio e procuro os teus olhos vazios do outro lado do espelho, os teus olhos parados dentro da tua casa-coração, uma fortaleza sem portas para o mundo. Passo o pente dos meus dedos pelos teus cabelos brancos, enrolo-os em cachos magros e baços enquanto espero que voltes. Choro. Sinto-me só e choro. Por fim, de dentro da tua casa-coração tu dizes - Tive tantas saudades tuas... - e eu encosto o meu rosto ao teu cabelo lavado onde as lágrimas se aninham. Os meus dedos feitos barcos navegam mais devagar pelo rio do teu rosto e no abraço em que te prendo, só a tua voz é a minha âncora.