terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Em 2014...


Ame. Goste de si. Valorize-se. Dê o seu tempo aos outros e gaste algum a sós consigo. Beije. Perdoe e perdoe-se. Visite um idoso. Faça aquele telefonema que tem atravessado na garganta. Envie o e-mail que nunca teve coragem de escrever. Escreva uma carta de amor. Proteja alguém mais fraco, alguém mais pobre. Dê aquilo de que não necessita. Ensine uma canção a uma criança. Adote um animal abandonado ou apadrinhe um de uma associação. Abrace uma causa. Recorde os seus mortos. Leia um poema todos os dias. Olhe em volta de si. Repare nos detalhes das grandes coisas. Tire fotografias. Aprenda uma língua estrangeira. Ouça uma música inesquecível. Dance com a pessoa que ama. Caminhe ao ar livre. Cante a plenos pulmões. Ria às gargalhadas. Aprenda a rir-se de si próprio. Atreva-se a provar um alimento exótico. Vista uma cor que nunca usou. Viaje, se preciso for, e vá ter com alguém de quem sente muita saudade. Ande descalço. Cultive flores e sinta o cheiro da terra que se agarra às mãos. Respeite todo o ser vivo, seja ele bicho ou planta. Recicle, reutilize, reaproveite. Aprecie a força da natureza, nas manhãs de sol como nas noites de trovoada. Não tema as sombras. Sinta o prazer da chuva sobre o rosto. Se puder, vá ver o mar todos os dias, registe a sua irrepetibilidade e aprenda com ele. Saiba esperar. Saiba ouvir. Saiba pedir desculpa e admitir um erro. Reduza a sua velocidade. Inquiete-se. Reze ao deus em que acredita. Olhe a magnificência das estrelas e pense na sua pequenez. Fique em silêncio se não tiver nada de bom para dizer. Abrace bem fundo. Olhe nos olhos. Diga "Amo-te" todos os dias mesmo a quem já não o pode ouvir.
 
Se lhe pareceu longa e maçadora a lista, ignore todos os itens e cumpra apenas o primeiro e o último.
A si, que me visita, desejo um ano feliz. Desejo-lhe dias cheios de sorrisos. E lembre-se, todas as pessoas do mundo sorriem no mesmo idioma.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Contabilidade e balancete

É inevitável, quando um ano chega ao fim, pensar-se no que de melhor e de pior vivemos no arrastar dos meses. Comigo aconteceu ontem ao telefone, com uma amiga de quem sentia muitas saudades e com quem falei durante tempos infinitos entre risos, gargalhadas e disparates inconfessáveis... Quando ela me perguntou, respondi-lhe sem hesitar que o melhor de 2013 foi chegar ao fim, olhar em volta dos meus e contar o mesmo número de pessoas. Não perder ninguém foi o que mais tinha pedido na viragem do ano. Mas é só isso??? - perguntava ela, a morrer de curiosidade numa cusquice que acho encantadora. E continuava - Então e a Turquia? Os turcos? Ver o sol a nascer nas montanhas da Capadócia a bordo de um balão? Hem? Isso não foi super bom? - Sim, foi bom. Foi maravilhoso. E lá contei da simpatia dos turcos, dos seus sorrisos maravilhosos e dos olhos surpreendentemente azuis - tão belos! -, da forma como abrem as portas de casa e do coração aos visitantes a quem é um ponto de honra receber principescamente... Contei-lhe da sensação de andar descalça no lago de sal como se fosse sobre gelo, das planícies lunares e das paisagens áridas, estranhamente vermelhas, da cidade esculpida na pedra e das cidades subterrâneas, da comida e do chá bebido a toda a hora, das lindíssimas mesquitas e dos tapetes maravilhosos, das escolas que visitei e onde as crianças me receberam com a bandeira de Portugal nas mãos... Sim, a Turquia foi uma viagem inesquecível que me aconteceu este ano... Concordei com ela e deixei cair o assunto sem lhe contar que melhor do que a semana vivida na Turquia, mais importante do que isso, tinha sido a resposta que 2013 me trouxe a uma pergunta antiga que fazia a mim mesma  em silêncio, há mais de trinta anos. Este ano, a incógnita que me habitava desfez-se. Como por magia, a inquietude terminou, eu sei finalmente a resposta. Mas isto, claro, guardei para mim, na masmorra do inviolável castelo das minhas emoções e não lhe contei, porque a minha amiga não ia mesmo entender... E também porque há segredos que se mereceram habitar-nos durante uma vida, devem morrer connosco. A sós connosco.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Carpe Diem


Do Natal ao Ano Novo viro-me para dentro de mim e espreito o avesso daquilo que dou aos outros. Acontece-me já há alguns anos, fico mais silenciosa, são mais suaves os meus passos, mais tranquilos os meus gestos, movo-me com outra serenidade... Desacelero, no sentido literal do verbo. E reviro a casa de pernas para o ar. Preciso de a olhar com olhos de ver, de a sentir enquanto organismo vivo que durante o ano maltrato com ausências, com chegadas tardias, com correrias insanas até na hora das refeições. Olho-a e vejo-a. E porque as casas respiram, adoecem e envelhecem, passo a pente fino gavetas e armários, examino clinicamente louças, roupas, bibelots e tralha que durante tantos meses vai ficando negligenciada, desfaço-me do inútil, do velho, do partido, do feio, do degradado... Recupero tudo o que posso, aproveito o que pode ainda ser reutilizado. E compro coisas novas. Pequenas coisas que são um sorriso, um grito de alegria, um toque de cor e de luz na monotonia da vida - uma moldura, uma jarra, um tapete, uma vela, uma toalha - ou então mudo objetos de lugar para que me surpreendam quando meto a chave à porta... Gosto de arrumar, de saber exatamente onde está cada coisa, de guardar as minhas roupas por cores e por tons em degradé, de alinhar as canetas e os lápis, os livros e os cadernos por tamanhos e por utilidades. Esta imposição severa dá-me a sensação de controlar o meu pequeno mundo, mas talvez seja apenas uma forma de tentar combater o caos quotidiano onde me embrulho e que me faz adiar projetos que sei agora, são cada vez mais irrealizáveis - (nunca vou escrever um livro de poemas, aprender a tocar piano, a dançar sapateado, a pintar, a bordar...) - Dantes fazia listas de desejos, de sonhos, de decisões a tomar no novo ano... Agora rio-me dessa infantilidade e dessa pretensão quase divina de tentar comandar os meus dias. Vivo cada vez mais, um dia de cada vez. O melhor que posso, o melhor que sei. Não preciso de quase nada para ser feliz, não tenho ambições materiais e não acumulo más recordações, desejos de vingança ou sonhos impossíveis... Não guardo coisas más dentro do peito, nem tenho facas espetadas no coração - perdoei-me e perdoei a quem tinha de perdoar. A única coisa de que preciso é de tempo, para mim e para os outros. Para os que me amam e fazem de mim uma prioridade, para os que se preocupam comigo e para os que precisam de mim. É esse tempo que me falta para me dar a quem se dá a mim. É esse tempo que espero que 2014 me traga. Isto e claro, um corpo que se mantenha saudável e não me traia com cansaços mesquinhos nem se deixe apanhar por uma qualquer doença com um nome terrível...
E como o futuro a Deus pertence, no presente vou tentando ser feliz. Um dia de cada vez. Afinal, a vida é assim: um dia a seguir ao outro. Todos os dias.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Do Amor


Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história 
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não contes
que o mar és tu
e a nau sou eu. 



Fernando Namora, "Poema de Amor"

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

FELIZ NATAL!

A todos os visitantes deste espaço, desejo Amor, Saúde e Paz. Como dizem os nossos queridos irmãos de terras de Vera Cruz, o resto a gente faz...
Um Feliz Natal!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

É quase Natal...

 
Ela conhece-me quase desde que nasci. Não sei que espécie de laço nos une mas é indestrutível, indiferente aos preços bem mais convidativos das grandes superfícies comerciais, impermeável às ofertas do "pague dois leve três", impassível às ofertas em cartão, em talão, ou aos descontos no combustível... Ela sorri-me e abraça-me quando eu entro, e é um sorriso rasgado que ilumina uns olhos felizes, cada vez mais pequeninos e perdidos numa fina rede de rugas à medida que os anos vão passando. Chama-me querida. Chama-me amor. Um chamar sincero que denuncia um coração bom, uma alma simples e generosa.
Escolhe ela própria as peças de fruta e enquanto conversamos toma-lhes o peso de mansinho, afaga-lhes a pele e vai enchendo as sacas com cuidado e ternura. Conhece as minhas manias (Número par como sempre, não é amor?), os meus gostos (Maçãzinhas ácidas e sumarentas, querida), até os meus hábitos (Umas uvinhas docinhas para debicares enquanto escreves)... Dá-me tudo a provar - mesmo que eu não queira - e regista um peso sempre abaixo do valor ditado pela balança. Mima-me. E devolve-me as minhas memórias...
Hoje quando entrei já tinha a minha encomenda preparada, é assim nestes dias em que os braços não param para atender tanta gente... Só faltavam as nozes, as amêndoas e os figos, ela sabe que eu sou louca por figos e apontou-me os cestos carregadinhos - Prova, amor. São de Trás-os-Montes, deliciosos...!  - E os olhos sorriam, toda ela sorria antecipando a cena de ver-me provar figos de olhos fechados, na memória, como um fogo, ardiam as lembranças  da figueira imponente da casa transmontana dos avós que eu trepava sem medo, tantas vezes esmurrando mãos e joelhos para roubar os frutos mais maduros, as nozes que partia com uma pedra sentada ao sol na eira quente e a amêndoa perfumada e macia forrando o chão do sotão, a secar lentamente na penumbra doce e silenciosa, enquanto a madeira estalava devagar... Provei de tudo e trouxe um pouco de cada qualidade. Sim, paguei mais, muito mais do que pagaria num hipermercado... Gastei mais mas saí mais rica daquela pequenina frutaria de bairro, com as memórias avivadas numa nitidez que faz bater mais forte o coração, a boca a saber a mel e os lábios pegajosos da doçura que roubei à minha infância... Ao Natal da minha infância. 

sábado, 21 de dezembro de 2013

Inverno, outra vez


No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
 
Ricardo Reis, "No Ciclo Eterno" in Obra Poética (Excerto)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Vox populi, vox Dei


Escute cem vezes, pondere mil e fale apenas uma vez.

Provérbio turco

domingo, 15 de dezembro de 2013

Morrer de Amor (ah, sim)

 
Já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
Mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

A gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

Há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
Mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim.


 
Vasco Graça Moura, "Blues da Morte de Amor"

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Ó Stora...

 
Estou convencida de que para a maior parte dos alunos - senão para todos -, os professores são pessoas desinteressantes, estagnadas, sem vida ou amor próprio e completamente assexuadas.
E este é o mais poderoso trunfo que poderemos usar na relação com eles. Para ir ao encontro deles. E surpreendê-los.

Pas de deux


Espera um pouco, não adormeças já. Quero ler-te um poema do livro que comprei hoje, é um poema que não entendo e que me apanhou desprevenida. Abri a capa distraída e o arrepio de um verso colou-se-me à pele quando eu folheava ao acaso as páginas macias. Eu sei que é tarde, de qualquer modo espera, vamos abrir aquela garrafa de licor que comprei em agosto na feira de artesanato, queres? Duas pedras de gelo - disse a artesã. Se preferires, há vinho seco que escondi disfarçadamente no frigorífico para uma noite assim. Na lareira a lenha ainda arde, podemos ficar a roer romãs enquanto te falo dos versos que me estrangulam... Ou posso confessar-te, enquanto acendo um cigarro, esta tristeza que não sei contar a mais ninguém, esta tristeza que me vem talvez do jardim despido onde só despontou a sardinheira roxa e o vaso de malagueta que trouxe quase moribundo do horto do costume. O vendedor ia deitá-lo fora e acabou por mo oferecer com um sorriso descrente, o meu grito vermelho adivinhado, que esta semana se fez tão rubro. Tu não sabes, andei lá fora, debaixo das sombras, pisando devagar a capa dura de geada que o sol hoje não derreteu... Talvez se encostasse o ouvido à terra conseguisse ouvir as plantas a nascer, a voz imparável das raízes que se fortalecem e se entrelaçam num destino milenar, e seria menos triste a minha tristeza... Fica, dança comigo, abraça-me e deixa-me pousar o rosto na curva do teu pescoço, ficar assim aninhada no teu cheiro, no calor da tua pele, no cais do teu peito onde o meu coração barco se abriga, e não digas nada... Eu sei que te pareço estranha, mas tantas vezes não me entendo nem entendo a vida... As razões da vida. Acho que já te disse tudo... Sussurro-te só o que finges não saber ainda - adoro dançar descalça... - Há uma música que toca suave, as chamas iluminam o teu rosto. Esta noite, despudoradamente, quero dançar devagar...
Fica mais um pouco, dança comigo... Não adormeças já.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Tempus fugit

 
Não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir  não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir não vou conseguir...!!!!!!!!!
 
A não ser que o tempo pare de voar... 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Obrigada, Madiba

 
Uma boa cabeça e um bom coração formam sempre uma combinação formidável.
 
Nelson  Rolihlahla  Mandela (18 de julho 1918 - 5 de dezembro 2013)

Do Tempo que passa


O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou.

Vergílio Ferreira, in Conta-Corrente

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Duplas Palavras

 
(...) e como estrelas duplas consanguíneas,
luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Helder

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A semântica do indizível


Aprender o alfabeto da luz, a pronúncia sussurrada da folhagem, estudar apaixonadamente as conjugações estelares, aprofundar o léxico galáctico, mergulhar na semântica universal…

e apesar disso, bastar-me o pensamento de contigo me cruzar para logo emudecer...
 
António Gil, in Obra ao Rubro
 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Sementes Daqui

 
Não é porque gosto muito, muito dela; não é porque somos amigas, incondicionalmente e para sempre, traga a vida o que nos trouxer; não é porque a obra necessite de publicidade; é só porque, provavelmente, Sementes Daqui, de Lídia Borges, é o melhor livro de poesia editado este ano. 

Ana Paula Mateus