quarta-feira, 26 de junho de 2013

No limite

 
Porque o que mais custa a suportar não é a derrota ou o triunfo, mas o tédio, o fastio, o cansaço, o desencorajamento. Vencer ou ser vencido não é um limite. O limite é estar farto.

Vergílio Ferreira

segunda-feira, 24 de junho de 2013

(...)


Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

António Lobo Antunes

sábado, 22 de junho de 2013

Pássaros azuis


Amachuco o azul com toda a força
até ser feliz. E beijo a minha própria boca
com as tuas palavras, frutos de uma paixão
que nunca me separou do fogo, mesmo quando
as minhas mãos alisam a pele do mar
para dentro de ti encurtar a distância
que me separa já da juventude.
O azul é assim. Um fruto mágico
das árvores do sol, que alimenta e enlouquece
os pássaros do amor, esses mensageiros
dos versos que te escrevo quando
é insuportável a dor da tua ausência.

Joaquim Pessoa, "Poema Septuagésimo Nono" in Guardar o Fogo 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Verão em mim

 
Então hoje é Verão. Foi o meu primeiro pensamento, ainda de olhos fechados, ainda debaixo dos lençóis, ainda de barriga para baixo - abraçando a almofada - ainda resistindo ao gesto de silenciar o despertador. Hoje é Verão, pensei - e sorri, dentro da escuridão dos meus olhos. Feliz, porque o meu corpo é mais feliz no Verão. A minha alma também. Mas depois saí à rua e o vento norte, gelado, e a pele arrepiada, fizeram-me desanimar: de que serve este dia - o mais longo do ano - se nada muda? Para que serve este dia, que devia ser luminoso e pousar no rosto, nos ombros como uma carícia, que devia entrar pelo peito dentro e encher de calidez os recantos mais escondidos, para que serve hoje a longuidão da luz? E zango-me com o atraso do Verão, com este dia de trabalho que só terminará às 21 horas, com a impossibilidade de estar onde eu queria estar... Porque mesmo que a reunião termine às 20.30 e eu conduza como uma louca, nunca estarei às 22 no Terreiro do Paço, na Lisboa que eu amo, com um casaco de carapuço apertado até ao pescoço a ouvir aquele que deverá ser o mais belo e inusitado dos concertos: o som de cem sinos de 16 igrejas, de 30 embarcações, de seis viaturas de bombeiros, seis elétricos e dois comboios, ouvidos ao longo de sete minutos - "Lisboa em Si", a homenagem da cidade das sete colinas em memória dos sete minutos do terramoto de 1755. Hoje é Verão, o dia mais longo do ano. E acredito que apesar de ainda haver luz no céu às 22 horas, ela não ofuscará o brilho do very light que será disparado da embarcação "Príncipe Perfeito" - o sinal para o arranque do espetáculo. Desconfio mesmo que se eu pudesse lá estar, pouco me importaria o frio e o Inverno que persiste porque durante sete minutos haveria luz e calor e brilho na minha alma - seria Verão e haveria música, uma orquestra inteira a tocar dentro de mim.


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Da Melancolia


Há meses que vivo rodeada
por uma substância negra e pegajosa
que invadiu a minha casa. As paredes,
o chão, as janelas e os móveis,
a comida, os livros e a roupa,
o teclado do computador, as plantas,
o telefone… Está tudo impregnado
com este pez escuro, o mesmo que respiro
e que me mata pouco a pouco.
Dizem que os venturosos e os néscios
chamam melancolia a esta porcaria
que apodrece o coração e asfixia a alma.

Amalia Bautista

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Parabéns, Garfield!


O mais delicioso gato da BD faz 35 anos. Parabéns!!

E tu, o que levavas?

 
Imagine que vai haver um maremoto daqui a hora e meia e que tem uma hora para fazer a mala e meia hora para fugir. Para além da felicidade de continuar vivo, que coisas levaria consigo?
 
Miguel Esteves Cardoso, "A tralha, o maremoto e a litrosa" in Como é linda a puta da vida 

Do Amor

 
Deixas-me nas mãos a tua alma,
como um casaco.

Marguerite Yourcenar

terça-feira, 18 de junho de 2013

Os amantes


Os amantes, em geral,
passam noites inteiras
inquietos e ansiosos
- também eu.

Os amantes, em geral,
choram sobre as cartas,
dão telefonemas aflitos
- como eu.

Os amantes, em geral,
passam horas figurando
o corpo amado,
curvas, gestos, preferências
- como eu.

Os amantes em geral,
são patetas, maus estetas,
fazem versos ruins
e se chamam poetas
- como eu.

Affonso Romano de Santana

segunda-feira, 17 de junho de 2013

As Mulheres


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração. 



Daniel Faria

domingo, 16 de junho de 2013

O meu coração está com os meus alunos

 
Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança.
O material que é trabalhado pelos professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com suficiente precisão para medi-lo. Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. (...) O trabalho dos professores é a generosidade.
 
José Luís Peixoto, in Visão, 14 de outubro 2012
 
 
 
acho, sim, que os professores devem fazer greve, porque a defesa da escola pública é a defesa dos professores mas, sobretudo, é a defesa dos alunos. e o governo já mostrou o quanto gosta dos alunos, sobretudo dos que, licenciados e sem destino, emigram com um adeusinho ligeiro pelas costas.
se as posições não forem de força, se a sociedade civil não mostrar o quanto se importa com o que adquiriu por direito, então não haverá nada para defender. estaremos num terreno minado, exposto à exploração sem piedade que por toda a europa se procura impor.
os professores têm agora a possibilidade de mostrar o quanto acreditam no que defendem, e os alunos têm a possibilidade de o entender melhor do que nunca.
 
valter hugo mãe, in Facebook - Página Oficial (14 de junho 2013)


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Aurora

 
Chamei-lhe Aurora. Talvez porque é das palavras mais belas da língua portuguesa, a sugerir o brilho da luz da manhã. Também como uma manhã que rasga devagarinho a escuridão da noite, a Aurora teria sido um recomeço, o dia primeiro de uma nova vida cheia de esperança. E teria sido amada, muito amada. Penso nela muitas vezes, sonhei até um sonho doce onde ela me falava e sorria, com um ramo de flores na mãozinha pequenina. Senti-lhe o cheiro, o cheiro inconfundível que têm todas as crianças. E peguei-lhe ao colo, e ela era leve como uma ave, ou uma flor...
A Aurora nunca chegou a nascer. São coisas que aceitamos quando somos confrontados com elas, os médicos nada omitem e ajudam a tomar decisões, a fazer escolhas: uma vida por outra vida. E então, vestimos a pele dos deuses e decidimos, a frio e racionalmente. Mas ninguém nos conta, como a mãe da Aurora me contou, que um pedaço de nós morre com aquele coração que deixou de bater, que pelo resto dos nossos dias haveremos de imaginar a cor do cabelo, o tom da pele, o sorriso, o jeito de caminhar, o caráter que teria o filho que não pudémos deixar nascer. Um filho: a maior de todas as prendas que a vida nos dá - ou Deus, não sei bem...
Se a Aurora tivesse nascido, eu gostaria de ter sido a madrinha dela. Ter-lhe-ia ensinado as cores do arco-íris, a construir castelos na areia e a amar o mar... Ensinar-lhe-ia lengalengas e canções de embalar, trava-línguas e provérbios... Andaria com ela de patins e de bicicleta, para que sentisse o vento bater-lhe na cara e aprendesse o cheiro a sal nos cabelos... Ensiná-la-ia a plantar rosas e a maciez da terra molhada agarrada às mãos... Talvez lhe contasse a história do homem que vive para além das montanhas, na face oculta da lua...
Uma vida por outra vida... Assim teve que ser. Mas acredito que nada é em vão, que a Aurora é hoje um anjo branco que de vez em quando vem beijar a mãe e não parte sem antes, sereníssima, me abençoar os sonhos... 


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Palavras sussurradas


Tinha um cravo no meu balcão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
Só não dei o coração;
Mas se o rapaz mo pedir
- mãe, dou-lho ou não?

Eugénio de Andrade, "Canção" in Obra Poética

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O tempo que nos aproxima

As pessoas que dizem que o tempo cura tudo sabem que não é assim tão fácil. Sabem que o tempo é apenas uma distância. Sabem que o tempo, quando se junta a um grande amor, faz outra coisa: aproxima. E é essa aproximação que transforma a dor da ausência na companhia eterna da saudade.
É o tempo que nos volta a trazer a pessoa amada que partiu. E trá-la de uma forma que não sofre nem morre, portátil e interior, renovando-se dentro da alma como um feliz sossego que nada ou ninguém - nenhuma doença, nenhuma distância, nenhuma traição - pode atingir ou inquietar.
O tempo cura porque aproxima o amor do amor. O tempo purifica a saudade, mas, ao mesmo tempo, dá-lhe vida. A pessoa que se perdeu encontra-se e reencontra-se, sempre diferente da última vez que se esteve com ela, nunca estática, nunca decadente, tão fluída e vívida e essencial como o sangue que nos corre nas veias.
Foi assim que voltou o meu pai depois de ter morrido - e nunca mais se foi embora; nunca mais saiu de mim.

Miguel Esteves Cardoso, "O tempo que nos aproxima" in Como é linda a puta da vida

terça-feira, 11 de junho de 2013

O (meu) mar...

 
O mar. O mar novamente à minha porta.
Vi-o pela primeira vez nos olhos
de minha mãe, onda após onda,
perfeito e calmo, depois,

contra falésias, já sem bridas.
Com ele nos braços, quanta,
quanta noite dormira,
ou ficara acordado ouvindo

seu coração de vidro bater no escuro,
até a estrela do pastor
atravessar a noite talhada a pique
sobre o meu peito.

Este mar, que de tão longe me chama,
que levou na ressaca, além dos meus navios?



Eugénio de Andrade, "XXIV" in Branco no Branco

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Dia de Portugal


Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal, nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

                                        Valete, Fratres.

Fernando Pessoa, "Nevoeiro" in Mensagem
 

Dia de Camões


O dia em que eu nasci, moura e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo, e, se tornar,
eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
a mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!

Luís Vaz de Camões, in Rimas

Da inutilidade do sono


Nunca gostei de dormir. É uma luta antiga, que me leva a evocar as tardes quentes em Trás-os-Montes, o casarão da avó abraçado à imponente buganvília cor de sangue que ladeava o arco da entrada, os caminhos de terra cheios de bichos, as borboletas que quase conseguia agarrar, os figos tombados no chão apodrecendo num cheiro doce, o grande tanque onde a água gelada transbordava e onde eu lavava - cantando esganiçadamente - a roupa das bonecas... Tanta coisa para fazer, tão curtas as férias, e a minha mãe obrigava-me a dormir a sesta no quarto escurecido... E eu nunca dormia. Ficava de olhos abertos a ouvir os besouros e as cigarras, as vozes abafadas dos adultos na cozinha de pedra, o estalar das madeiras velhas, os cavalos tão perto de mim...
Nunca gostei de dormir. A minha adolescência foi um braço de ferro com a autoridade materna porque eu lia pela noite dentro, compulsivamente, até me arderem os olhos, até os braços e as mãos dormentes já não conseguirem segurar o livro... Sempre me pareceu uma perda de tempo este coma induzido a que o nosso próprio corpo nos vota, este desligar de fios, este apagão mental que nos fragiliza e nos expõe como uma nudez, este baixar das barreiras do pensamento que permite o assalto covarde dos sonhos... À queima-roupa, eles surgem dentro dos olhos fechados como imagens de um filme que não sabíamos ter vivido, recuperam fragmentos da memória que julgávamos perdidos, fazem-se presente, outra vez. É injusto. É injusto acordar quando os sonhos são bons. É injusto ter adormecido quando acordamos com os olhos molhados de lágrimas e um grito atravessado na garganta.
Não, nunca gostei de dormir. A noite não devia servir para isso, tão bela é a noite, tão fecunda, tão misteriosa é a noite! Gosto de conduzir de noite, de viajar de noite, do cheiro e do sussurro da noite... À noite vejo melhor, penso melhor, escrevo melhor, sinto melhor... Que inutilidade, ter de dormir...! E às vezes penso que deveríamos poder negociar com o corpo, reduzir as horas de imobilidade, é escandaloso e chocante o tempo perdido... Faço contas, outra vez: se eu viver até aos noventa anos, terei passado trinta anos a dormir, apagada, inconsciente, morta para a eterna novidade do mundo, como diz o Caeiro. Trinta anos! Tanto livro, tanto filme, tanto texto, tanta viagem se faz em trinta anos... Para uma vida que só nos é permitido viver uma vez, breve como o riscar de um fósforo, sinto o sono como uma perfeita e completa inutilidade, um desperdício de tempo. Por isso, já que amanhã é feriado, esta noite não vou dormir, vou ficar as escrever as palavras que andam cá dentro, como borboletas... Também elas não dormem, as borboletas. Também tão breve, tão veloz, a vida que vivem.     

domingo, 9 de junho de 2013

Palavras simples

 
A simplicidade é o último degrau da sabedoria.

Khalil Gibran

sábado, 8 de junho de 2013

O poema


O poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos, tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e incertezas.

José Luís Peixoto

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Rituais...


Acompanhar até ao portão os familiares e os amigos que vão saindo; sentir o arrepio da noite pousado nos ombros, como uma mão divina; ficar a acenar um adeus feliz até que o último carro desapareça na curva da estrada; bater suavemente a ruidosa porta da entrada; trocar os saltos altos pelo conforto da borracha das havaianas; carregar as pilhas de louça para a cozinha, fazer desaparecer rapidamente os vestígios da festa...; juntar todas as prendas; separar o lixo (tanto vidro, tanto cartão...!) e reparar sorrindo que como sempre, a caixinha dos comprimidos da avó ficou esquecida no braço do sofá; partir os restos do bolo em partes iguais e guardá-los em tupperwares que amanhã serão entregues aos que hoje não puderam estar presentes; pôr a máquina da louça a lavar; ajeitar com ternura os cortinados, alinhar milimetricamente a moldura de um quadro que descai; fumar um cigarro tranquilo, enquanto todas as fotografias tiradas vão passando devagar no visor cheio de luz; sorrir; rir; olhar em volta, confirmar a ordem retomada no meu mundo; demorar-me finalmente  debaixo do chuveiro na água muito quente; depois, só depois, apagar uma por uma todas as luzes; subir as escadas devagar, contando mentalmente os degraus, sorrir e atrasar o pé naquele que range; abrir silenciosamente as portas dos quartos, beijar os filhos adormecidos; acariciar o gato enrolado, sentir na mão o ronronar tranquilo; fechar os olhos, sentir-me a guardiã do meu pequeno castelo e pensar que perante esta paz, nenhum cansaço é capaz de rasgar-me o corpo.   

terça-feira, 4 de junho de 2013

Meu Amor de carne e sangue


Quando nasceste, puseram-te em cima de mim e ficamos a olhar-nos só os dois, como se nos conhecêssemos desde sempre. Ainda hoje trocamos esse olhar profundo e sabemos um do outro, sem precisarmos de falar... É um elo de amor puro, inquebrável, indestrutível, pois que é feito de carne e de sangue, de voz e de silêncio.
Vejo-te crescer e sei que tenho que te deixar ir... Mas sabes, tenho medo que a vida te magoe e que eu não possa proteger-te... Por isso dás comigo a olhar-te, de longe, e é ainda o mesmo olhar em que nos perdemos da primeira vez: o olhar de um imenso amor.
Hoje fazes anos. Dezoito. Deixo de ser a tua encarregada de educação e já podes fazer tudo sem mim: votar, casar, conduzir, sair do país, até ser preso, como me disseste a brincar! Vás tu para onde quiseres ir, que sejas feliz e que encontres os meus olhos para se cruzarem com os teus, no dialeto de todos os entendimentos. Eles revolverão o mundo à tua procura, se algum dia te perderes.
Parabéns meu filho! Amo-te tudo... sabias?

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A Prova de Fogo


É uma espécie de pacto entre nós, antigo e secreto. Desde sempre, desde que me lembro de ter aprendido a escrever, eu entregava-te os textos e tu corrigias - o vocabulário, os erros, os acentos, a pontuação. Em português e em francês. Ao longo de todos estes anos, não me recordo de ter escrito um texto "branco", como tu dizias... Havia sempre uma falha que eu não tinha visto, uma incoerência que não tinha detetado, uma repetição vocabular que tu achavas ruidosa, um verbo desapropriado. Nunca mo disseste, mas eu sei que aguardavas esse texto sem mácula pelo qual me haverias de dar os parabéns, o poema ou a composição a que, na forma e no conteúdo, chamarias perfeita. Por vezes sentia-te desiludida comigo (Como é que não sabes isto?! Mas então não viste este erro???) e jurava a mim mesma que o próximo passaria o exame dos teus olhos de professora, exigente e perfecionista.
Hoje quando cheguei, entreguei-te um texto sem dizer nada e deixei-te a sós com ele, como sempre faço. Esqueci-me até do assunto, às voltas com a louça, com a roupa, com a vassoura e o pano do pó... Depois fui ter contigo e vi uma estranha luz nos teus olhos, uma emoção diferente a que não soube dar nome... Abraçaste-me durante muito tempo... Passaste-me as mãos pelo rosto, prendeste-me o cabelo atrás da orelha... falaste: Tens tantas coisas dentro de ti... Coisas tão belas, filha...
Ao fim de todos estes anos eu senti-me aprovada, passada com distinção, sem cábulas, sem ter copiado ou feito batota, na mais difícil de todas as minhas provas...  De mãos dadas, os corpos muito juntos, ficamos caladas a ver o sol incendiando as janelas, os gatos sobre os muros quentes, os cedros altivos paralisados na tarde sem vento, as roseiras já em flor trepando as varandas... Fingiste não me ver chorar, aninhada em ti... Sabias-me feliz por ter passado finalmente sem nódoas, a prova de fogo. No teu colo, o meu texto branco, silencioso,  sorria-te docemente. Dentro do meu peito, o meu coração tinha-se soltado e corria veloz para ti, como uma cascata de água pura, uma nascente de vida.     

sábado, 1 de junho de 2013

Pintar a vida e Brincar, sempre! :)


Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.

Carlos Drummond de Andrade