quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Mar Mulher


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tudo o que não digo

 
Não me leias as palavras... Lê antes os meus silêncios, a voz suspensa no avesso dos lábios, os gestos que me escorregam das mãos quando me julgo a sós comigo... Lê os meus passos lentos, subindo e descendo as escadas sem ruído, no fim de um pesadelo que me deixa o coração sufocado de terror... Lê a minha alegria quando ouço as aves ao amanhecer, ou adivinha-a nas mãos cheias de terra negra e molhada das raízes das azáleas que plantei no jardim... Lê-me no rosto cheio de chuva, nos caracóis dos cabelos desalinhados pelo vento quando recolho a roupa do varal, no brilho dos meus olhos sempre que abro a porta do forno e rego o assado com vinho tinto, no doce de maçã com canela da receita da minha avó... Lê-me na ternura das mãos tranquilas quando acaricio o gato, enroscada na música do ronronar tão calmo... Lê-me nos caminhos por onde ando, nas conchas e nos búzios que roubo ao mar, nas danças dos meus pés ao cair da noite antes da casa adormecer suavemente... Lê-me na saudade inconsolável dos meus mortos e na forma como amo os vivos, lê os meus erros e as minhas derrotas, as esperas pacientes e infinitas, lê as minhas pequenas vitórias... Lê-me quando eu tombo, derrubada, e também de todas as vezes que me reergo ferida...
Não me leias nos poemas, na prosa, nas frases riscadas à pressa na lista das compras, nas folhas que deixo ao abandono, nos desenhos que o meu dedo traça nas vidraças embaciadas... Lê o meu corpo, quando me encosto às sombras de olhos fechados, lê o rasto do meu perfume no corredor da casa ... Lê o que não digo, todos os dias. Lê o que não escrevo, meu amor.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Trono de luz e sombra


É nesse ponto
de tuas coxas
que o meu pescoço
implora a forca

Mas dás-lhe o trono
da luz da sombra
num sorvedouro
de rosas roxas

Agreste gosto
de húmida polpa
o que dissolvo
dentro da boca

Eis num renovo
mágica força
Rei me coroo
em tuas coxas

David Mourão-Ferreira, "XXII" in O Corpo Iluminado

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A tarde a chegar ao fim

 

Deixa que seja uma criança
a inclinar a tarde.
Dizem que é verão: não acredites.
O verão tem os pés iluminados pela lua,
o verão tem os nomes todos do mar,
não é o deserto
da cama aberta ao frio,
o prazer imitando a neve.
O que se vê daqui não é a dança
da claridade com o trigo,
o rio onde os cavalos bebem
a tarde a chegar ao fim.

Deixa que seja uma criança.

Eugénio de Andrade, in Contra a Obscuridade

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Ó Stora...

 
Era uma aula de oficina de escrita. Eles escreviam concentrados, tentando fazer nascer nas folhas dos cadernos um texto que correspondesse às indicações de trabalho. Era uma proposta difícil, reconheço, mas gosto de puxar por eles, gosto de ver até onde conseguem ir nas suas asas, motivados por mim e pela fasquia que elevo sempre um pouco demais... Escreviam presos à sua própria imaginação, cada um no seu mundo silencioso, debruçados sobre si próprios, perdidos no surpreendente universo das palavras. Mas não havia silêncio na sala. Nunca há silêncio numa sala de aula, mesmo que ninguém fale, e isso só um professor sabe. Eu andava no meio deles, atenta ao que faziam e à maravilhosa música que só conhece de cor quem é professor: uma caneta que cai, um lápis aguçado apressadamente, o roçagar das folhas dos cadernos, as mãos que limpam os restos da borracha que apagou o erro, o fecho de um estojo que se abre e o tilintar das canetas debaixo dos dedos que buscam a esferográfica que fará a caligrafia perfeita, uma cadeira que se arrasta subitamente, um breve tossir, um nariz que funga, o rasgar nervoso de uma folha para recomeçar tudo de novo, um rascunho amassado com frustração... Sons como música que conheço de olhos fechados e que se repetem ano após ano, desde o primeiro dia em que comecei... E gosto desta música sempre igual, sempre diferente, sempre familiarmente melodiosa e ritmada... Gosto de andar no meio deles, de me debruçar sobre os seus ombros, de lhes desenhar nos cadernos um sorriso quando trabalham bem, de corrigir e refazer frases, de repontuar, de acentuar, de substituir palavras... Gosto de passar por eles e de os acarinhar, de os incentivar, de lhes provar que afinal era fácil o que eu tinha pedido. E então eles chamam-me constantemente, querem ser os primeiros a mostrar os textos, pedem para depois os deixar ler em voz alta, é sempre assim, sei-o antes de mo perguntarem. Sei quando estão a terminar, que tudo será como sempre: "Ó Stora, já acabei, pode chegar aqui?" e que terá sido o fim da música que só eu ouço e estará para sempre rasgado o silêncio quando alguém resmungar "Ó Stora, mas eu chamei primeiro...!".

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Da partida



Mandei para o largo o barco atrás do vento
Sem saber se era eu o que partia.
Humilhei-me e exaltei-me contra o vento
Mas não houve terror nem sofrimento
Que à praia não trouxesse,
Morto o vento.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O lugar das memórias

 


Guardava alguns silêncios e também as coisas
que não dissera por acaso. Guardava agora também
esses acasos, brancos recados entre as palavras
que lhe sobravam nas gavetas. E ainda assim guardaria
para sempre essas palavras, ou a imagem de lábios a
dizê-las ― um rosto ainda sem ser triste lembrando o verão.

Teria aguardado esse verão, o cheiro quente dos morangos
à beira os dedos. E tê-lo-ia sobretudo guardado,
como guardava agora, sem nunca o ter ouvido, o som
das espigas, na planície, à passagem do vento.

Mas agora só podia aguardar a passagem do tempo
sem palavras; ou um vento de feição, um acaso
que tudo justificasse. E no silêncio em que se ia guardando
buscava apenas um lugar mais sereno para as memórias.

Maria do Rosário Pedreira, in A Casa e o Cheiro dos Livros

domingo, 20 de janeiro de 2013

Agora

 

Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora.
 
Vergílio Ferreira, in Escrever

sábado, 19 de janeiro de 2013

Amor se faz de amor




de amor se faz amor
de nada mais resulta amor
que amor se faz de amor
de nada mais.
resulta amor de amor
que amor se faz de nada.
mais resulta que amor de amor
se faz amor de nada
mais.
 
E. M. de Melo e Castro, "Um poema" in Antologia Efémera
 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Chove...

 
 
Na vidraça embaciada, uma gota de chuva - uma só - escorre lentamente num caminhar triste e silencioso. De vez em quando pára e apetece-me tocar-lhe no corpo de água... Depois prossegue na lentidão arrastada de quem não sabe para onde ir, redonda e cristalina como uma lágrima que desaparecerá para sempre na água do rio que me corre no pensamento.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Lembra-te


Memento mori.

(Adágio latino)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Da espera


 
Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze táxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.


António Lobo Antunes, in Livro de Crónicas

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Da leveza




A leveza pode ser a morte da angústia. Em certos momentos, deveria escrever um necrológico, um obituário. E seria mais ou menos assim. Nota de falecimento. Hoje a minha angústia acordou morta.
 
Carlos Eduardo Leal, "Obituário para a Angústia" in A Última Palavra

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Nas mãos das palavras

 
Gosto de mãos. Gosto da força das mãos. Nelas se leem os gestos mais secretos, os sonhos mais fundos... Com elas se mata e se faz amor. As mãos apertam-se em raivas silenciosas ou abrem-se em ofertas indizíveis, com elas se diz Adeus, se diz Olá, com as mãos tocamos os rostos que amamos e com elas empurramos o peito dos gigantes e dos fantasmas. Com as mãos fazemos e desfazemos, amassamos o pão e abrimos o ventre negro da terra molhada para plantar uma árvore. É nas mãos abertas que guardamos as lágrimas que choramos a sós, e nelas tombam silenciosas as insónias que escorrem das paredes do quarto. Por vezes fechamos os olhos, para que as mãos vejam melhor. E por vezes, tantas vezes, as mãos desenham o sol, desenham a lua, navegam solitárias em memórias de pele... Nas mãos escondemos poemas e medos, tempestades e certezas, com as mãos nos traímos e nos revelamos...
Sim, gosto de mãos. Da fúria e da força das mãos. Da doçura e da maciez das mãos, como asas abertas de aves em voos sem rumo... Tão iguais a palavras, as mãos. Como mãos, as minhas palavras... As minhas palavras, nas tuas mãos.  

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Teu, o meu nome





Onde quer que o encontres
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de
uma árvore, na pele de um muro,
no ar qu
e atravessar de repente
a tua voz, na terra apodrecida
sobre o meu corpo – é teu,

para sempre, o meu nome. 


Maria do Rosário Pedreira, in Nenhum Nome Depois

domingo, 6 de janeiro de 2013

Meu Amor de carne e sangue

 
Quando nasceste estava um dia assim, cheio de um surpreendente sol radioso, brilhante, que caía sobre a cidade e a pintava com uma luz única... Eu sentia muito medo desta aventura desconhecida que era ser mãe... Tinha medo de não saber cuidar de ti, de não conseguir proteger-te, de não adivinhar porque choravas... Tinha medo de não conseguir ser uma boa mãe. E depois nasceste, e quando o teu pai te pôs nos meus braços e eu te olhei nos olhos, te cheirei, te contei os dedinhos das duas mãos, te beijei a pele de veludo e te olhei no fundo dos olhos surpreendentemente azuis, soube que seria capaz. Soube nesse momento que saberia proteger-te, que trocaria a minha vida pela tua, se fosse preciso.
As pessoas dizem que és parecida comigo. Talvez seja verdade, mas eu não consigo encontrar-me em ti. Encontro o teu pai em ti, no mesmo caráter nobre, na mesma dignidade com que geres as tuas emoções... Encontro o teu pai no teu sorriso, no sentido de humor, no positivismo com que encaras os dias e os trambolhões na estrada da vida. Cresceste tão depressa! Hoje és tu que me proteges, sem saberes. Hoje é em ti que encontro a força que por vezes me falta, e a lucidez, na tua alegria que enche a casa ao fim do dia. Hoje proteges-me com a tua presença serena e doce. Admiro em ti a forma como amas o teu irmão, os teus avós, como te dás silenciosamente aos outros nos mais pequenos gestos...
Não sei se sou boa mãe... Sei que tu és a melhor filha do mundo, sei-o desde o dia em que nasceste. Sei-o desde o primeiro momento, em que eu e o teu pai nos olhamos nos olhos e te abraçamos num abraço único, a ti, um ser minúsculo e indefeso, carne da nossa carne, sangue do nosso sangue.
Parabéns, Filha! Que se pode desejar a uma filha no dia do aniversário? Talvez apenas que Deus te proteja, e que tenhas toda a sorte deste mundo. 
Amo-te tudo... Sabias? 
 
 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Da viagem da vida

 
Pensas que nunca te vai acontecer, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo a quem essas coisas irão acontecer, e depois, uma a uma, todas elas começam a acontecer-te, como acontecem a toda a gente.

Paul Auster, Diário de Inverno

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Janeiro

 
Abro de par em par as janelas deste janeiro frio e sereno. Há um sorriso secreto na luz do entardecer, tombado sobre o mar, nimbado de um azul quase violeta... O vento invade os labirintos agora desertos da minha vida, enche-os de esperança... Sinto um suave rasto de perfume e ouço a melodia eterna de uma sonata perdida... Debaixo da minha pele, onde só os meus olhos podem ver, aninha-se tranquilo o meu desejo para o novo ano.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Dia Mundial da Paz


Paz na Terra, aos homens de boa-vontade.