domingo, 30 de setembro de 2012

Adeus




Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde o teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
 
Eugénio de Andrade, "Adeus" in As Palavras Interditas
 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

De que cor são os teus fantasmas?


Os erros que cometi morrerão comigo, mas não posso recuperar as coisas que nunca fiz.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Palavras tristes



Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito
como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.
 
Maria do Rosário Pedreira, in O Canto do Vento nos Ciprestes
 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Água e estrelas...


Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um só mel derrotados.

Pablo Neruda

sábado, 22 de setembro de 2012

Palavras roubadas


Mude, mas comece devagar porque a direção é mais importante do que a velocidade.

Edson Marques

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O dia principia





Acordo. Dormes ainda.
Que fazer se me apetece?
Pego na tua mão
e pouso-a onde estou vivo.
Respiras. Andantino.
As costas para mim. Não resisto.
Os dedos, leves, ensalivados,
vão à procura do grão, do seu
pólen. Vão e vêm, vou e venho.
Beijo-te no ombro. Sorris.
Dormes ainda? Subitamente
abres os olhos e abres a boca
e debruças-te sobre mim.
O dia principia.
 
Casimiro de Brito, "89" in Amar a Vida Inteira
 

Um beijo...

 
 
 
Sumo na vida
é o que eu te desejo
rumo na vida
um beijo
um beijo


Sérgio Godinho

(Não estás sozinha... sabes?)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Música de açúcar a meio da tarde...





Deixei contigo o meu amor,
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar,
com o azul do céu à saída.
por entre cafés fechados e um por abrir.

Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a surpresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar,
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.

Por isso tenho tudo o que preciso
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.
 
Nuno Júdice, "O que temos" in O Estado dos Campos
 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Os lugares voadores



Os lugares não se comparam. Como as pessoas, cada um deles acontece num momento único, numa única e irrepetível vida.
 
Mia Couto, in Pensageiro Frequente

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Teoria das nuvens




As nuvens desenham figuras.
O céu em volta das nuvens desenha figuras.
Os olhos desenham sempre figuras no céu.
 
Pedro Mexia, "Três Teorias" in Duplo Império


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Todas as mortes gastei




Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.
 
Mia Couto, "Sem depois" in Idades Cidades Divindades
 

sábado, 15 de setembro de 2012

Filhote...

 
Conduzo devagar e o carro ronrona no asfalto quente com os vidros abertos para não sufocarmos nesta manhã abrasadora de verão tardio. Paramos no sinal vermelho e eu dou-te a mão, como tantas vezes faço, enlaço os meus dedos nos teus nesse gesto de ternura familiar que é a minha mão entre as tuas. Hoje as tuas mãos já são maiores do que as minhas, são umas mãos bonitas e grandes, harmoniosas e elegantes, como as do meu pai... Sem te olhar, sinto-te a presença calma a meu lado, tão serena, tão reconfortante... Sinto o cheiro suave do teu aftershave, um aroma fresco de que gostas tanto e que te ofereceram no aniversário, que vem com a brisa pelas janelas abertas e me bate na  pele e na memória. Conduzo devagar e em silêncio, assim só de mão dada contigo, os nossos dedos misturados... e sinto o coração subitamente apertado porque sei que é o último ano que te terei assim, tão próximo de mim. Penso, de repente, que para ano já não partilharemos a mesma escola, que a vida te vai obrigar a fazer escolhas e a partir, primeiro para outra cidade, depois talvez para outro país... Penso que não te terei mais assim, o teu corpo grande descontraído a meu lado, os olhos fechados e os phones nos ouvidos, livre na música do teu próprio mundo... Penso na falta que me farás, penso que não mais nos cruzaremos nos corredores, que não te verei nos intervalos, que ao final das aulas não estarás encostado ao carro, à minha espera, com o teu sorriso de sol, esse sorriso que te ilumina todo e te enche de brilho... E lembro-me então do primeiro dia em que te levei à escola, tão pequenino, a rebentar de ansiedade, e te entreguei à professora com o coração apertado... Lembro-me de que olhaste para trás, me atiraste um beijo e me disseste - Não te preocupes, eu vou gostar muito, mamã... - (Onde estão todos estes anos, para onde voaram tão depressa, onde os perdi...?)
Chegamos finalmente... E tu guardas os phones, pegas na mochila, refaço as recomendações do costume, abraço-te e ouço-te dizer, tão meigo, tão doce - Boa sorte com os teus alunos, mamã... Não fiques nervosa, vai correr bem, como sempre! - Baixo os olhos para que não me vejas as lágrimas e vejo-te partir ao encontro dos amigos no teu passo seguro e sereno. Vejo-te reencontrar o teu grupo, a tua turma, ouço as risadas alegres e sei que para o ano não estarás aqui, a sossegares-me no primeiro dia de aulas, a acalmares-me o estúpido nervosismo de sempre, com o teu maravilhoso sorriso de sol a encher o meu coração de luz.
 
(Deixo um abraço a todos os meus visitantes... É bom estar de volta... !)