sábado, 31 de março de 2012

Preso no vento


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves
são as únicas que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento.

Mário Quintana

Feitiço


E todas as horas que o tempo
Tem pra me conceder
São tuas até morrer.

Djavan

quinta-feira, 29 de março de 2012

Millôr Fernandes - 1923 - 2012


Viver é desenhar sem borracha.
Millôr Fernandes

(A vida ficou mais pobre. E a literatura também.)

quarta-feira, 28 de março de 2012

O Fogo da Memória


Uma fogueira é sempre uma celebração entre o ar e outra matéria.
Vem. Vamos arder nos braços um do outro. Depois, as cinzas
hão-de espalhar-se pela memória desta noite.

Joaquim Pessoa, in Ano Comum

sábado, 24 de março de 2012

As cores do Amor


As pessoas são como os arco-íris, nós nunca nos entendemos nas sete cores mas se nos entendermos em três ou quatro já é muito bom.

António Lobo Antunes

quinta-feira, 22 de março de 2012

Palavras de Guerra


É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso
O que sinto,
O que digo
E o que faço
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido,
Nem convencido.
E agrido em mim o homem e o menino.


Miguel Torga, "Guerra Civil" in Orpheu Rebelde

terça-feira, 20 de março de 2012

Primavera



A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.

Cecília Meireles

segunda-feira, 19 de março de 2012

Pai...


Abraça-me, pai. Onde quer que estejas.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Da morte


De novo a morte. Inesperada, brutal, derrubando os pilares da felicidade, esventrando até sangrar as paredes do coração. Não, tens razão, não consigo lidar com a morte... Talvez isso tenha um nome, talvez os psiquiatras saibam, li algures que a não aceitação da morte é apenas imaturidade emocional. Seja. Crescerei, algum dia? Deixarei alguma vez de os sonhar, aos meus mortos, de lhes ouvir os passos e os risos, de os encontrar na rua, subitamente, ao virar de uma esquina? De lhes sentir o cheiro, como uma brisa suave que passa ao de leve sobre a pele despida? Alguma vez deixarão de regressar numa fotografia esquecida, numa música que irrompe de repente, na silhueta de alguém parecido, numa palavra que só eles diziam...? A morte é um murro no estômago que nos obriga a continuar a caminhar curvados porque há uma dor que nos parte a meio e que só nós vemos, só nós sabemos. É só nossa e não sabemos contá-la. Odeio-a, sabes? Porque rouba sonhos e muda vidas, num instante, no derradeiro instante da batida do coração que desiste. Odeio-a porque é definitiva. Irreversível. Porque leva os que amamos mas leva-nos a nós também, aos pedaços, destruídos, seres humanos em farrapos que têm que continuar de pé, a caminhar mais vazios, mais sós e mais tristes. A morte é nunca mais. A morte é o fim definitivo. O último ato, o ponto final, a porta que se fecha, a luz que se apaga, a nota final da melodia da vida. O escuro. E o silêncio. A eterna saudade. E dói. A morte dói-nos no coração apertado que parece querer rebentar, dói na garganta, no sítio onde nascem as palavras... Talvez seja por isso que cala, que para sempre silencia tanta coisa dentro de nós... 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Metade


Metade mulher metade pássaro
Metade anémona metade névoa
Metade água metade mágoa
Metade silêncio metade búzio
Metade manhã metade fogo
Metade jade metade tarde
Metade mulher metade sonho

Jorge de Sousa Braga, Ferida aberta

domingo, 11 de março de 2012

Da espera


Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 7 de março de 2012

África


E então baixei os olhos para que não visses as lágrimas e sussurrei-te ao ouvido, a meio do abraço Vou regressar a África e tu sorriste e não me acreditaste. Que sou do mar e a minha alma é um peixe, vai sufocar no chão quente de terra vermelha, disseste. Mas é que tu não sabes que tenho sonhado com céus de fogo ardendo em horizontes infinitos e dentro da minha memória há um cheiro que não reconheço... Estará em África, junto da lama morna e do cacimbo que me escorria nos cabelos, na chuva de bátegas grossas como pedras ou nos amanheceres luminosos de pássaros enormes riscando o azul? Tenho que ir, repeti, e tu sorriste outra vez, o beijo meigo a tentar amparar-me a loucura que me lançará de novo nesta mania de ser ave atirada em rota incerta... Quero regressar a África para descobrir se conseguiria ser feliz atrás das montanhas, vou deitar-me no pó do chão para ouvir os bichos rastejarem, vou caminhar descalça pelos atalhos e roubar os frutos às árvores, como quando era menina... Vou tentar encontrar o que lá ficou de mim. Mas eu volto, mãe. Volto para te contar se pertenço à terra, como as árvores, ou se sou apenas o que tu dizes, um peixe que se julga ave e se despenha em voos picados nos fundos abismos do mar salgado.  

terça-feira, 6 de março de 2012

Assim...


Imagem no espelho
Raiz de pedra.
Corpo de vento,
Olhos de água.
Assim sou
Entre pássaro, flor e mágoa.

Luísa Dacosta

segunda-feira, 5 de março de 2012

Planta-me no teu jardim...


É quase primavera, reparaste? Planta uma árvore no teu jardim, uma árvore bela que rebente em flor e se encha de frutos, onde as aves façam ninho e que seja a casa dos bichos... E depois, baixinho, a sós contigo, dá-lhe o meu nome. Quero ser uma cerejeira cor de rosa e envelhecer num canto abrigado do teu chão, quero conhecer-te pelo riso e saber de cor o som dos teus passos, quero que te sentes à sombra de mim e encostes o cansaço ao meu tronco, com os olhos fechados... Planta-me no teu jardim, quero enterrar-me na terra que abrirás com as tuas mãos, quero ser a árvore serena que só tu cuidarás, regarás, podarás, adubarás, quero ser uma árvore que sobreviva para além de nós... Talvez possas escolher o canto mais silencioso, porque eu gosto de silêncio... Só tu saberás que sou eu, tomarás conta de mim, não deixarás que a tempestade me derrube e colherás os frutos que eu der, que serão doces, cor de sangue, o sangue da nossa saudade. E talvez possas, quando a árvore for forte e tiver o tronco rijo, colocar num dos ramos mais altos um espanta-espíritos feito de conchas e de búzios. E quem sabe, quando o vento a agitar ao fim da tarde, talvez ouças a voz do mar na cerejeira com o meu nome. Talvez ouças as ondas, ainda as minhas ondas a bater em ti.

sábado, 3 de março de 2012

Porque hoje estou feliz... Fica feliz comigo


Milhares de velas podem ser acendidas através de uma única vela, e a vida dessa vela não será encurtada. A felicidade nunca diminui por ser partilhada.

Buda