sábado, 31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO!


Depois da meia-noite, virá o Ano Novo...O engraçado é que - teoricamente - continua tudo igual...
Ainda seremos os mesmos.
Ainda teremos os mesmos amigos.
Alguns o mesmo emprego.
O mesmo parceiro.
As mesmas dívidas (emocionais e/ou financeiras).
Ainda seremos fruto das escolhas que fizemos durante a vida.
Ainda seremos as mesmas pessoas que fomos este ano...
A diferença, a subtil diferença, é que quando o relógio nos avisar que é meia-noite, do dia 31 de dezembro de 2011, teremos um ano INTEIRO pela frente!
Um ano novinho em folha!
Como uma página de papel em branco, esperando pelo que iremos escrever.
Um ano para começarmos o que ainda não tivemos força de vontade, coragem ou fé...
Um ano para perdoarmos um erro, um ano para sermos perdoados dos nossos...
366 dias para fazermos o que quisermos... este ano temos mais um dia…
Sempre há uma escolha.
E, exatamente por isso, eu desejo que façam as melhores escolhas que puderem.
Desejo que sorriam o máximo que puderem.
Cantem a música que quiserem.

Quero agradecer aos AMIGOS e FAMÍLIA que tenho:
Aos que me 'acompanham' desde muito tempo.
Aos que eu fiz este ano.
Aos que eu escrevo pouco, mas lembro muito.
Aos que eu escrevo muito e falo pouco.
Aos que moram longe e não vejo tanto quanto gostaria.
Aos que moram perto e eu vejo sempre.
Aos que me 'seguram', quando penso que vou cair.
Aos que eu dou a mão, quando me pedem ou quando me parecem um pouco perdidos.
Aos que ganham e perdem.
Aos que me parecem fortes e aos que realmente são.
Aos que me parecem Anjos, mas estão aqui e me dão a certeza de que este mundo é mesmo Divino.

(Texto de autor anónimo, recebido por e-mail)


FELIZ ANO NOVO a todos os visitantes deste espaço.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Mãe...


Nunca nos deixa crescer.
Temos sempre a idade das sandálias
cambadas,
dos calções sujos de amoras bravas.

Está de pé, entre os nossos olhos,
como um jardim.

Mesmo quando os cabelos
começam a ficar
no pente, esbranquiçados,
é sempre a mesma: flor que não cai
no outono do tempo.

Como se a cada segundo renascesse
do seu próprio perfume.

Eduardo Bettencourt Pinto, A mãe

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Dias assim


Há dias, sabes, em que gostava de ser como o gato e que  me tocasses sem desejar encontrar qualquer sentimento a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar.

Pedro Paixão, Assinar a Pele

sábado, 24 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL!


A todos os visitantes deste espaço, desejo um santo e feliz Natal.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Palavras roubadas


Os homens deviam ser o que parecem ou pelo menos, não parecerem o que não são.

Shakespeare

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

As Facas do Amor


Quatro facas nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome.
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.

Este amor é de guerra. (De arma branca).
Amando ataco amando contra-atacas
este amor é de sangue e não estanca.
Quatro letras nos matam quatro facas.

Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas.
E em cada assalto sou assassinado.

Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas.

Manuel Alegre, As Facas

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Há outros Natais


Nem percebia que caminhava na direção errada, subindo contra a multidão que descia, o casaco desapertado no frio do inverno que não sentia na pele nua. Um passo a seguir ao outro, sem firmeza, numa lentidão triste de quem perdeu o rumo certo ou não tem para onde ir, os braços pendendo tristemente, a mão direita segurando com firmeza a trela de um cão. O homem chorava. As lágrimas, duas a duas, aninhavam-se no rosto sulcado de rugas profundas, morriam apertadas nos lábios cheios de cortes que sangravam. A menina não viu um cão?  Não viu o meu Rex? Não, eu não vira, só a dor dilacerante daquele homem era visível e doía... Meteu a mão no bolso e mostrou-me os biscoitos dietéticos e o medicamento, contou-me da diabetes e da dependência de insulina, do tanto que gastava para lhe comprar os remédios, da casa desesperantemente fria e silenciosa há dois dias, das horas vazias de sono e de fome, do cansaço da busca imparável, de como desaparecera num minuto pequenino enquanto ele dormitava num banco de jardim... A menina sabe, ele só me tem a mim!  Sem mim, ele morre...! Eu acreditei. Acreditei porque há amores assim, amores eternos e infinitos, alma de cão e alma de gente, almas apenas, afinal. Acreditei que algures na cidade, um cão  sem rumo perguntava também aos passantes pelo dono perdido, talvez sentindo o desespero do coração que se rasga e se parte, sim, coração de bicho também dói, também sangra, e tenho a certeza que o Rex explicaria, se pudesse, que tinha de encontrar o dono, um velho  que só o tem a ele, que precisa tanto dele, e que sem ele, com toda a certeza, antes do Natal, morre de tristeza, de desespero e de solidão.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Aprende o meu corpo. Aprende o teu corpo.


O ar de repente tornou-se perfumado e Maria de Magdala apareceu, nua. (...) Maria parou ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo, ardente e suave, e disse, És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos. Hesitando, Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus dois seios são como os dois filhinhos gémeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou do lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, Aprende, aprende o meu corpo. Jesus olhava as suas próprias mãos, que Maria segurava, e desejava tê-las soltas para que pudessem ir buscar, livres, cada uma daquelas partes, mas ela continuava, uma vez mais, outra ainda, e dizia, Aprende o meu corpo, aprende o meu corpo. Agora Maria de Magdala ensinara-lhe, Aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, Aprende o teu corpo, e ele aí o tinha, o seu corpo tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que dizia, Calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frémito.

José Saramago, O Evangelho segundo Jesus Cristo