segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Em nome de ti


Em nome da tua ausência
construí com loucura uma grande casa branca
e ao longo das paredes te chorei.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 27 de novembro de 2011

Vox populi, vox Dei


Un libro abierto es un cerebro que habla; cerrado, un amigo que espera; olvidado, un alma que perdona; destruído, un corazón que llora.

Provérbio espanhol

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Baixa-mar


Acontece-me esta maré baixa de alento
que deixa a nu as rochas molhadas da inquietude.
Como uma praia vazia de água,
fico a debater-me no areal ventoso
num estranho vaivém
contra o penedio escarpado da alma.

E é uma descida íngreme, vertiginosa,
onde sufoco nas margens de mim,
me afogo em silêncios
e me firo
e me rasgo.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O sal do teu sorriso


Às vezes é verão dentro da minha memória e o tempo não tem pressa nas horas deitadas fora sem sentimentos de culpa. E ouço a tua voz. A doce melancolia da tua voz, a abrir sulcos no pântano da saudade que sempre escorre em mim. É igual ao que sempre foi, lembrando-me das coisas que foram e ainda das que hão de vir. Não sei bem porquê, este estio seco a rasgar lembranças, assim tão de repente. Sei que é verão e nos poemas da tua boca tens ainda os lábios húmidos, abertos no sal de um eterno sorriso. O mesmo sorriso suspenso, paralizando os ponteiros. O mesmo sorriso com que me juraste tudo, o mesmo sorriso com que me prometeste tanto.

sábado, 19 de novembro de 2011

O sentido oculto das coisas


O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos.
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja mais nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Alberto Caeiro, XXXIX, O Guardador de Rebanhos

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Os meigos dedos das palavras


E de mansinho as palavras chegam
tocam-me os silêncios do rosto
e escrevem os textos que me roubaram a voz.

Tão meigas e suaves, as palavras,
Só elas, a escorrerem tristezas na quietude
da noite molhada de vento...

Só as palavras, com dedos feiticeiros
a tecerem alquimias, a sararem feridas,
a encontrarem saídas e luzes em túneis escuros.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Pai, quero que saibas


É o teu rosto que encontro. Contra nós, cresce a manhã, o dia, cresce uma luz fina. Olho-te nos olhos. Sim, quero que saibas, não te posso esconder, ainda há uma luz fina sobre tudo isto. Tudo se resume a esta luz fina a recordar-me todo o silêncio desse silêncio que calaste. Pai. Quero que saibas, cresce uma luz fina sobre mim que sou sombra, luz fina a recortar-me de mim, ténue, sombra apenas. Não te posso esconder, depois de ti, ainda há tudo isto, toda esta sombra e o silêncio e a luz fina que agora és.

José Luís Peixoto, Morreste-me

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

No espanto das mãos - o verbo


Ela merece.
E para mim é uma honra.
Parabéns, Lídia!
Deixo-te o meu beijo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Ponto de Fuga

Quando tombado, o corpo é apenas matéria orgânica a degradar-se no chão do planeta. Caído por terra, ele sabe da morte anunciada como a árvore arrancada pela raiz, a ave com uma asa partida, o peixe fora de água. É uma questão de tempo e de forças. Sem equilíbrio, o corpo caído olha de frente a morte e procura desesperadamente o ponto de fuga... Um sorriso, um olhar atento, uma palavra, um gesto. Ou uma voz. Qualquer coisa que o faça erguer-se, que o levante em pé, talvez uma música, uma imagem, uma memória... Um cheiro. Ou uma luz.
Às vezes os pontos de fuga não existem ... e incapaz de se levantar, o corpo desiste por fim, prepara-se para ser esmagado e entrega o que resta de si às leis da vida e do universo.